segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Funeral de Eva

(seguimento da série de contos das personagens de ninguém)

A sala esta abafada, cheia de caras repletas das mais variadas emoções, trajadas de negro luto enaltecem a urna ornamentada por belas flores com cartões que nem me dou ao trabalho de ler, está a asfixiar-me este ar nauseabundo...


o meu olhar divaga entre os rostos sem nome cavaleiros em vultos esbatidos que insistem em abraçar-me inundando o meu ser com odores que não quero sentir, beijos secos que não quero receber, abraços dos quais quero fugir, palavras de consolação que não quero ouvir, conselhos repetidos que não me interessam para... NADA!
-oh Maria tu ve-la! agora estas sozinha, olha que eu estou aqui..
- Mariazinha esta tão grande querida.. olhe a sua imã deixou testamento?
e esta porcaria continua... bla...bla...bla...bla...bla..blA..blA..bLA..bLA..BLA...BLA!
 -CALEM-SE, CALEM-SE! VÃO EMBORA! grito para mim mesma num grito mudo que só eu consigo ouvir..
O lençol rendado que cobre o rosto de minha irmã parece mover-se como se ela respirasse. Liberto-me das mãos que me prendem e aproximo-me lentamente da urna simples mas imponente que ocupa metade da divisão. pura alucinação da minha esperança.. não aguento estar aqui.
Na rua, as nuvens cinzentas não assustam uma onda de gente que pretende adorar o cadáver, continua a oferta indesejada de sentimentos aos pacotes, beijinhos a torto e a direito e tentativas de abraços que ando a tentar evitar. vou cruzar os braços pode ser que assim não me chateiam muito.. merda lá para os beijinhos, já tenho a cara toda babada!
 não me vão tirar a minha dor, nem tão pouco devolver-me o que já me foi tirado, com a merda dos beijinhos! Estou cansada deste teatro de faz de conta onde cada um desempenha o seu papel como formiguinhas treinadas e quem escapa à linha é para abater. Entre duas passas dum silencioso cigarro observo as pessoas que ali estão. não conheço nem metade. algumas nem me conhecem a mim mas fazem de conta que sim e elaboram mil e uma perguntas sobre os pormenores da morte. AIIIIII MAS A VOCES QUE VOS INTERESSA???! volto a gritar de mim para mim em voz roucamente silenciosa...
-porque  isto tudo?
porque tão cedo?
 RESPONDE-ME CABRA!!!
podia ter passado mais tempo contigo, dar-te mais atenção, conhecer-te mais e  melhor...  AMAR-TE MAIS!!!... FODA-SE! ando em diálogos internos com as minhas vozes invisíveis que me tentam controlar e mandar nos meus actos. não consigo expressar o pesar que a tua partida me provocou e provoca!!!
  vou para tua casa sentir o teu cheiro e vestir o teu roupão só para fazer de conta que estas a trabalhar e voltas para jantar...
se ao menos conseguisse apagar esta dor...tudo era mais fácil...vá lá começou a chover...cheira a ti Eva...


texto participante no desafio com o tema "O cheiro da Chuva" proposto pela Fabrica das Letras

9 comentários:

Johnny disse...

Muito bom.

meldevespas disse...

Belo texto. Gostei muito.

Tulipa Negra disse...

Belo texto que retrata de forma realista a dor e o desespero pela perda de alguém. Adorei.
Beijinhos

Pedrasnuas disse...

UMA REALIDADE CRUA E NUA...MAS DESCULPA LÁ A FRANQUEZA ,FEZ-ME RIR!

UMA COMÉDIA DRAMÁTICA?

SEM OFENSA

GOSTEI

Anónimo disse...

you'r back?
essas realidades interiores , são do caralho. deixar partir a Eva sem abraços , nem beijos de desconhecidos...é tão somente encarar a presente ausencia de quem a quis eva.
o biolas.

Ricardo Fabião disse...

Muito bom mesmo.
Nossa heroína tem mesmo que se irritar com todo esse circo montado a sua volta.
Quanto à linguagem, direta, seca, uma pancada na boca do estômago, gostei.

Verdadeiro, doloroso, como boa literatura.

Abç.
Ricardo

Eduardina disse...

Um retrato muito realista de uma perda e dos bandos de abutres que se alimentam da dor dos outros...
Gostei muito.

Luís China disse...

ela voltará nem que seja por um segundo...

Catsone disse...

Texto forte, intenso e cru.
Gostei imenso!