quinta-feira, 19 de março de 2015

Simplesmente Amor...

Guardo numa das gavetinhas da memória, a minha primeira experiência sexual. Tinha conhecido o rapaz num dos cafés ao pé do liceu. Ele era engraçadito, tinha bom ar, a simpatia era o seu ponto forte e os seus olhos verdes. Nunca soube o que ele fazia da vida, mas tinha pinta de ser um bom vivant. Aos meus olhos era um deus grego, via nele toda uma vida. Muitas vezes no escuro do meu quarto com Bon Jovi como banda sonora eu pensava nele e inevitavelmente tocava-me imaginando-o a meu lado. Tinha fantasias sexuais com ele e histórias de conto de fadas, em que projectava ilusões e divertia-me a imaginar a nossa vida dali a 10 anos. Sonhos de criança, é o que posso dizer. Desconhecia totalmente a vida real, o amor para mim era como nos filmes que costumava ver às quartas ao final do dia. Durante todo o ano lectivo andei na sua sombra, aproveitando cada pedaço que sobrava do sorriso dele. Até que um dia, tal como nos filmes, ele cruzou o seu olhar com o meu… e eu corei. 
Sempre vi as coisas como sendo algo natural. Meti na minha cabeça que aquele olhar tinha significado alguma coisa, tinha de ter tido alguma mensagem que eu desesperadamente queria que fosse a que eu ansiava. Um dia, depois de um jogo de futebol, no qual ele sempre era a estrela e eu o olhava completamente alienado, ele veio ter comigo. Discretamente entregou-me um papel dobrado em quatro. Não trocamos uma palavra, nem foi preciso. Li no seu olhar que ele me queria. Tão depressa se dirigiu a mim como foi embora. Fiquei  petrificado, sentindo o calor que a mão dele deixou no meu braço a desvanecer. Um formigueiro invadia veloz a minha mente e o meu corpo. Sentia a excitação a inebriar-me os sentidos. Apertei com força o bilhete para ter a certeza que era real.  Em modo automático fui caminhando pelas ruas até à paragem de autocarro. Sentei-me no ultimo banco e desdobrei o papel com cuidado com medo de o rasgar e perder a preciosa mensagem.
Li a primeira vez e senti o sangue a bombar com a intensidade de um trovão dentro do meu corpo. Li a segunda vez muito devagarinho como os meninos da primaria, juntando as palavras para lhes sentir o sabor. Queria encontrar-se comigo, naquela noite depois de jantar junto ao chafariz da praça.

Nessa noite, comi pouco, consegui mastigar dois bocados de carne e umas garfadas de arroz. O nervoso miudinho corroía-me o estômago e apertava-me a garganta e não me deixando engolir. Nunca me tinha sentido assim. Cobarde e corajoso. A minha mãe estranhou a minha falta de apetite e ponderou que eu estivesse enfermo. Doce mãe a minha, sempre preocupada com o meu bem estar. Ainda o relógio de cuco da sala não batia as oito horas já eu rasgava o silencio da noite em direcção ao chafariz. Quando lá cheguei sussurrei o seu nome...e disse numa voz um pouco mais alta: sou eu o Diniz! 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Fenix

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Rasgo-te de mim com a mesma facilidade com que respiro. A minha pele que outrora conheceu a tua até ao mais ínfimo detalhe agora explode em bolhas de quem já não quer sentir o teu odor quanto mais a lembrança do teu toque. Raspo-te de mim até chegar ao osso, prefiro ser um esqueleto repleto de mim que um corpo com resquícios do teu cheiro que agora me viola cada vez que estou perto de ti.
Não, não me fizeste mal.. claro que bem também não. Foste o joguete da minha infâmia, a doçura da minha malícia, objecto da minha amargura. Porque te dispo de mim? Não sei.. e muito menos sei a razão de ser agora.
Que te respondam os teus deuses que os meus não ousam falar, estão presos na redoma de vidro . Por falar neles tenho que lhes ir acender umas velinhas, pode ser que assim te iluminem o caminho e se dediquem a outra coisa sem ser estarem ali enfiados o dia todo.
Não, não estou louca, aliás nunca me senti tão sã, tão repleta de mim mesma. Complexa? Penso que sou o mais simplificado possível, ou sinto ou não sinto.. não existe meio termo nem limbos que balançam. Estou farta de te encontrar em mim e em tudo que tocaste. Como ousas dizer que me sentes quando o que sentiste foi a miragem que te entreguei na penumbra do meu ser?
Já te disse que te apago com a mesma facilidade com que te escrevi. Devolvo aos meus sentidos o desconhecimento do que foste, pois o que és nada me diz.
Deixa-te de coisas, achas que foste feliz? Achas mesmo?
Como poderias ser feliz se ao teu lado a pessoa que te dá essa felicidade não o é?
Chega de historias, estórias e contos. Não sei para onde vou, pára de tentar chamar-me à razão com as tuas pré-concepções de estrutura em diagramas dos caminho que teremos que seguir. Não quero caminhos rectos...quero ruelas com bifurcações e sem placas que me empurram banhadas em pedaços de bússolas partidas.
Não. Já te disse que não sou fria … sou o gelo que queima de tão quente, sou o pulsar de um vulcão no interior de um icebergue.
Enquanto estas a obrigar-me a olhar para ti, não reparaste que o esqueleto se rodeou de músculos e de uma nova pele..mais brilhante e segura. O sangue que me corre nas veias é mais fluido e corre a um ritmo vertiginoso.
Assina lá essa merda que eu quero sair desta sala sem os vestígios destes anos em que não caminhei a teu lado, mas sim atrás de ti.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Antónia mas podia ser Antonieta de "Parri de France"


O sol entra gradualmente no quarto coordenado com os ponteiros do relógio, veio avisar-me que ainda estou viva. Faz hoje 6 meses que me encontro aqui, num lugar que não me viu nascer, mas que neste momento me faz sentir em casa. Esta foi mais uma noite mal dormida, em que as recordações do meu passado assaltaram-me a mente só para me lembrar que a penitência ainda agora começou.
Tenho saudades da minha mãe. Dos tempos em que me embalava no seu colo e eu conseguia absorver o seu odor que tanto me reconfortava. Era o cheiro da protecção, hoje já não retenho na memória essa sensação nem esse aroma, esqueci-me dele no meio das pedras que encontrei ao longo do meu caminho. Em criança, gostava de correr pelos caminhos da vila quando o sol se começava a ir deitar. O brilho do basalto ao sol lembrava diamantes negros. Nasci e cresci numa vila pequena, onde toda a gente se conhece e tem algum laço sanguíneo que os une nem que seja em centésimo grau. Sempre que penso nos caminhos da vila, lembro-me de que a rua era o meu refugio, tal como o guarda-fatos do meu pequeno quarto. Visitava com frequência estes locais para me abstrair dos gritos, do cheiro a álcool e da porrada seca que o meu pai descarregava na minha mãe nos dias em que a sueca corria mal, mas o vinho lhe descia bem pela garganta. A minha mãe lá aguentava, em silêncio resignava-se com a sua sorte, na rua comportava-se como uma mulher feliz e bem casada. Claro que não enganava ninguém, toda a gente sabia que em que dias é que a sinfonia de gritos de dor actuava em minha casa. Toda a gente sabia, ninguém fazia nada. Na escola, tinha inveja das outras crianças. Os pais pareciam ser devotos a elas ou pelo menos era isso que eu via. Muitas vezes em sonhos interrompidos pela sinfonia agoniante lhe desejei a morte e que deixasse a minha mãe em paz. Mas só o conseguia desejar por breves momentos, para logo sentir o arrependimento a abalar a convicção dos meus pensamentos.
Pouco depois de ter feito 8 anos de idade, fui morar com os meus avós maternos e com os meus tios, duas ruas abaixo da minha. A situação familiar não atravessava os seus melhores dias, as dívidas acumulavam-se, as discussões eram cada vez mais frequentes, porém nunca faltou comida na mesa, pois os meus avós iam ajudando a minha mãe a governar a casa. A minha mãe era uma escrava da vida, saía para trabalhar mal o sol nascia e ainda levava umas camisas das patroas para coser sentada ao pé do lume depois de jantar. Um ano depois, rumou para a França como tantos outros portugueses e eu fiquei na pequena vila, à guarda da minha avó.
Tenho boas recordações deste tempo, costumo lembra-lo como a era dourada da minha vida. A casa estava sempre animada, os jantares eram em família, aos fins-de-semana e quando não tínhamos aulas de tarde íamos todos juntos para a vinha ou para a horta. A minha avó era rígida, educação à moda antiga, devota a São Francisco já o meu avô era mais liberal. Contava-me histórias da sua juventude, das tropelias que fazia e das dificuldades que passou em criança. Era um homem do mundo. Já o meu pai, via-o no café da esquina sempre sem sede e de copo vazio, durante muito tempo não ouvi a voz nem senti o olhar dele.
No verão em que fiz doze anos a minha mãe divorciou-se do meu pai e encontrou a paz ao lado de um homem que a estima, aos catorze o meu irmão nasceu.
A vida corria normalmente, como seria de esperar num meio pequeno até que ao entrar na adolescência comecei a sentir asfixia. As constantes viagens nas férias para o estrangeiro e os impulsos de rebeldia que emanavam das grandes cidades como Paris começavam a despertar em mim a necessidade de descobrir. Quando regressava à pequena vila sentia-me oprimida pelas pessoas que me rodeavam. O espaço parecia-me pequeno, não tinha alternativas ociosas ou culturais que me cativassem. Eu não compreendia a diferença de mentalidades e as pessoas não entendiam as minhas escolhas, o que contribuía para o meu mal-estar. Sentia-me atacada por tudo e por todos, a minha revolta e necessidade de aceitação transformaram-me num ser rebelde. Sempre fui teimosa, bastante, sempre que me diziam: não vás por aí, eu ia… O meu grupo de amigos era mais velho, os maus rapazes e más raparigas reuniam-se aos fins de tarde numa casa abandonada. Tinham feito um “gato” no poste público que ficava coladinho à janela do quarto do andar de cima. Ouvia-se rock, música electrónica, fumavam-se uns charros e bebiam-se umas cervejas. De vez em quando alguém levava os restos do jantar ou íamos à padaria que ficava na saída da vila comprar um pão acabadinho de sair do forno que devorávamos a ver o nascer do sol.
Experimentei ganza pela primeira vez aos quinze anos. Não sei se por curiosidade ou para me afirmar. Lembro-me que estávamos sentados num dos miradouros da vila, era início de primavera. A vila nesta altura cheira a flores de tília, o céu nocturno repleto de estrelas cobre as casas e mergulha nos montes. Já não me recordo a quem pertencia o rosto cujas mãos me rodou o charro, peguei nele e hesitei, eles estavam todos eufóricos a tentar queimar as asas a uma formiga, completamente sorridentes. Eu queria um sorriso, bem, não era o sorriso, mas sim a felicidade que lhe associamos. Levei o charro aos lábios e puxei o fumo. Não estava a contar com aquele sabor forte a picar-me na garganta e explodi num ataque de tosse desenfreado. Após o gozo da praxe, por não saber fumar e duns quantos ensinamentos dos peritos lá consegui fumar correctamente. As primeiras passas entraram-me directamente para o cérebro num formigueiro que partiu dos pulmões em velocidade de cruzeiro. O ritmo cardíaco disparou, os suores frios começaram a percorrer-me o corpo. Uma sensação de paz e bem-estar inundou-me. Tinha encontrado um escape.
Nessa altura, completamente farta e na revolta inconsciente de ser adolescente optei por deixar de estudar. Estava na hora de ir de encontro ao mundo. Mudei-me para França, fui morar com a minha mãe deixando no ar a promessa de não regressar.
Por muito que na minha mente eu tivesse tudo controlado, as coisas não iriam acontecer como eu tinha planeado. Na minha inexperiência de vida, tudo seria um mar de rosas. Neste ponto estava a confundir rebeldia com razão, agia consoante o pulsar do coração e não queria ouvir as vozes que gritavam para não ir por ali, mas eu fui…
Sempre fui teimosa, bastante, sempre que me diziam: não vás por aí, eu ia…
Durante os primeiros meses, o convívio com a minha mãe foi pacífico, estávamos a procurar trabalho para mim numa das "madames" dela, o meu irmão deliciava-me e o meu padrasto respeitava-me e acima de tudo, não bebia.
A imagem que a minha mãe tinha da filha não correspondia à rapariga que vivia debaixo do seu tecto nem a dela, que era a sombra da mulher silenciosa e sofredora que eu me lembrava e eu na sua memória era a menina que corria descalça nas ruas.
Apaixonei-me perdidamente aos 16, encontrava-me a trabalhar numa padaria dum amigo da minha mãe. Já saía à noite e estava a pensar em ter o meu espaço, pois as discussões com a minha mãe começavam a ser frequentes.
A perda da virgindade, não me tocou como seria suposto. Toda a ideia de romance, borboletas e fadinhas não aconteceu. Foi algo que naturalmente iria acontecer naquele contexto. Ele era mais velho, tinha experiência de vida e isso atraiu-me. Não senti prazer, desconhecia a palavra orgasmo. Durante o tempo da relação e mesmo depois disso estive conformada que o sexo era assim. Sem prazer. Quatro anos depois e de muitas historias pelo meio é que soube o que era . Pensamentos da treta já são horas de levantar…para mais um dia na prisão.