segunda-feira, 18 de maio de 2015

Corre Menina..

Calçam os teus pés as cores do frio, mas não pares! Continua a galgar pela estrada como se toda a cidade te perseguisse de tochas acesas. VAI! Corre que a caça às bruxas começou! Esquece o sangue que te escorre pelo tronco e te inunda o regaço como se estivesses a dar à luz! Anda, corre mais rápido que estão quase a apanhar-te! Não ligues às pedras que te cortam os dedos e se afundam na tua pele. Corre! Elimina da tua mente tudo aquilo que em ti outrora brotou, apaga os resíduos de quem és e camufla-te na paisagem de betão! Vai! Corre que as luzes ainda regam o teu corpo tornando-te um alvo fácil! Anda! Não pares!

Esquece o vestidinho rendado que a tua mama te ofereceu e o casaquinho de marca que tanto gostavas. A corrida irá desprove-los do seu real valor, transformando-os em farrapos que te salvarão a vida! Anda corre! Porque estás especada nesse muro? Corre! A tua vida não será mais que a corrida que encetas neste momento! Anda! Corre por ti! Pelo sangue que o teu coração bombeia e alimenta as tuas veias! Anda! Corre! Nada mais serás que a sombra fugaz de quem se esconde no meio das torres de betão se te especares aí! Anda! Sabes para onde tens de ir! Não pares!

Vá, estás a chegar ao destino! Só mais um pouco! Esquece o chumbo em que as tuas pernas ágeis se converteram! Acelera o passo! Rasga a mata com os antebraços e com as mãos protege a cara! Anda! Mais depressa! Os galhos rasgam-te o rosto e saboreias o sangue que te toca nos lábios! Vai! Corre! Não consegues evitar todos os golpes, é impossível! Corre! Engole os soluços, liberta as lágrimas se for caso disso, mas não abrandes! Grita em surdina para que as árvores não se assustem! Vai está quase! Corre! Larga o peso das tuas dores enquanto vais tropeçando e te levantas! Vai! Corre minha menina corre!

Enquanto corres sentes a vida a recusar a morte, terás tempo para parar quando morreres!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Simplesmente Amor...

Guardo numa das gavetinhas da memória, a minha primeira experiência sexual. Tinha conhecido o rapaz num dos cafés ao pé do liceu. Ele era engraçadito, tinha bom ar, a simpatia era o seu ponto forte e os seus olhos verdes. Nunca soube o que ele fazia da vida, mas tinha pinta de ser um bom vivant. Aos meus olhos era um deus grego, via nele toda uma vida. Muitas vezes no escuro do meu quarto com Bon Jovi como banda sonora eu pensava nele e inevitavelmente tocava-me imaginando-o a meu lado. Tinha fantasias sexuais com ele e histórias de conto de fadas, em que projectava ilusões e divertia-me a imaginar a nossa vida dali a 10 anos. Sonhos de criança, é o que posso dizer. Desconhecia totalmente a vida real, o amor para mim era como nos filmes que costumava ver às quartas ao final do dia. Durante todo o ano lectivo andei na sua sombra, aproveitando cada pedaço que sobrava do sorriso dele. Até que um dia, tal como nos filmes, ele cruzou o seu olhar com o meu… e eu corei. 
Sempre vi as coisas como sendo algo natural. Meti na minha cabeça que aquele olhar tinha significado alguma coisa, tinha de ter tido alguma mensagem que eu desesperadamente queria que fosse a que eu ansiava. Um dia, depois de um jogo de futebol, no qual ele sempre era a estrela e eu o olhava completamente alienado, ele veio ter comigo. Discretamente entregou-me um papel dobrado em quatro. Não trocamos uma palavra, nem foi preciso. Li no seu olhar que ele me queria. Tão depressa se dirigiu a mim como foi embora. Fiquei  petrificado, sentindo o calor que a mão dele deixou no meu braço a desvanecer. Um formigueiro invadia veloz a minha mente e o meu corpo. Sentia a excitação a inebriar-me os sentidos. Apertei com força o bilhete para ter a certeza que era real.  Em modo automático fui caminhando pelas ruas até à paragem de autocarro. Sentei-me no ultimo banco e desdobrei o papel com cuidado com medo de o rasgar e perder a preciosa mensagem.
Li a primeira vez e senti o sangue a bombar com a intensidade de um trovão dentro do meu corpo. Li a segunda vez muito devagarinho como os meninos da primaria, juntando as palavras para lhes sentir o sabor. Queria encontrar-se comigo, naquela noite depois de jantar junto ao chafariz da praça.

Nessa noite, comi pouco, consegui mastigar dois bocados de carne e umas garfadas de arroz. O nervoso miudinho corroía-me o estômago e apertava-me a garganta e não me deixando engolir. Nunca me tinha sentido assim. Cobarde e corajoso. A minha mãe estranhou a minha falta de apetite e ponderou que eu estivesse enfermo. Doce mãe a minha, sempre preocupada com o meu bem estar. Ainda o relógio de cuco da sala não batia as oito horas já eu rasgava o silencio da noite em direcção ao chafariz. Quando lá cheguei sussurrei o seu nome...e disse numa voz um pouco mais alta: sou eu o Diniz! 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Fenix

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Rasgo-te de mim com a mesma facilidade com que respiro. A minha pele que outrora conheceu a tua até ao mais ínfimo detalhe agora explode em bolhas de quem já não quer sentir o teu odor quanto mais a lembrança do teu toque. Raspo-te de mim até chegar ao osso, prefiro ser um esqueleto repleto de mim que um corpo com resquícios do teu cheiro que agora me viola cada vez que estou perto de ti.
Não, não me fizeste mal.. claro que bem também não. Foste o joguete da minha infâmia, a doçura da minha malícia, objecto da minha amargura. Porque te dispo de mim? Não sei.. e muito menos sei a razão de ser agora.
Que te respondam os teus deuses que os meus não ousam falar, estão presos na redoma de vidro . Por falar neles tenho que lhes ir acender umas velinhas, pode ser que assim te iluminem o caminho e se dediquem a outra coisa sem ser estarem ali enfiados o dia todo.
Não, não estou louca, aliás nunca me senti tão sã, tão repleta de mim mesma. Complexa? Penso que sou o mais simplificado possível, ou sinto ou não sinto.. não existe meio termo nem limbos que balançam. Estou farta de te encontrar em mim e em tudo que tocaste. Como ousas dizer que me sentes quando o que sentiste foi a miragem que te entreguei na penumbra do meu ser?
Já te disse que te apago com a mesma facilidade com que te escrevi. Devolvo aos meus sentidos o desconhecimento do que foste, pois o que és nada me diz.
Deixa-te de coisas, achas que foste feliz? Achas mesmo?
Como poderias ser feliz se ao teu lado a pessoa que te dá essa felicidade não o é?
Chega de historias, estórias e contos. Não sei para onde vou, pára de tentar chamar-me à razão com as tuas pré-concepções de estrutura em diagramas dos caminho que teremos que seguir. Não quero caminhos rectos...quero ruelas com bifurcações e sem placas que me empurram banhadas em pedaços de bússolas partidas.
Não. Já te disse que não sou fria … sou o gelo que queima de tão quente, sou o pulsar de um vulcão no interior de um icebergue.
Enquanto estas a obrigar-me a olhar para ti, não reparaste que o esqueleto se rodeou de músculos e de uma nova pele..mais brilhante e segura. O sangue que me corre nas veias é mais fluido e corre a um ritmo vertiginoso.
Assina lá essa merda que eu quero sair desta sala sem os vestígios destes anos em que não caminhei a teu lado, mas sim atrás de ti.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Antónia mas podia ser Antonieta de "Parri de France"


O sol entra gradualmente no quarto coordenado com os ponteiros do relógio, veio avisar-me que ainda estou viva. Faz hoje 6 meses que me encontro aqui, num lugar que não me viu nascer, mas que neste momento me faz sentir em casa. Esta foi mais uma noite mal dormida, em que as recordações do meu passado assaltaram-me a mente só para me lembrar que a penitência ainda agora começou.
Tenho saudades da minha mãe. Dos tempos em que me embalava no seu colo e eu conseguia absorver o seu odor que tanto me reconfortava. Era o cheiro da protecção, hoje já não retenho na memória essa sensação nem esse aroma, esqueci-me dele no meio das pedras que encontrei ao longo do meu caminho. Em criança, gostava de correr pelos caminhos da vila quando o sol se começava a ir deitar. O brilho do basalto ao sol lembrava diamantes negros. Nasci e cresci numa vila pequena, onde toda a gente se conhece e tem algum laço sanguíneo que os une nem que seja em centésimo grau. Sempre que penso nos caminhos da vila, lembro-me de que a rua era o meu refugio, tal como o guarda-fatos do meu pequeno quarto. Visitava com frequência estes locais para me abstrair dos gritos, do cheiro a álcool e da porrada seca que o meu pai descarregava na minha mãe nos dias em que a sueca corria mal, mas o vinho lhe descia bem pela garganta. A minha mãe lá aguentava, em silêncio resignava-se com a sua sorte, na rua comportava-se como uma mulher feliz e bem casada. Claro que não enganava ninguém, toda a gente sabia que em que dias é que a sinfonia de gritos de dor actuava em minha casa. Toda a gente sabia, ninguém fazia nada. Na escola, tinha inveja das outras crianças. Os pais pareciam ser devotos a elas ou pelo menos era isso que eu via. Muitas vezes em sonhos interrompidos pela sinfonia agoniante lhe desejei a morte e que deixasse a minha mãe em paz. Mas só o conseguia desejar por breves momentos, para logo sentir o arrependimento a abalar a convicção dos meus pensamentos.
Pouco depois de ter feito 8 anos de idade, fui morar com os meus avós maternos e com os meus tios, duas ruas abaixo da minha. A situação familiar não atravessava os seus melhores dias, as dívidas acumulavam-se, as discussões eram cada vez mais frequentes, porém nunca faltou comida na mesa, pois os meus avós iam ajudando a minha mãe a governar a casa. A minha mãe era uma escrava da vida, saía para trabalhar mal o sol nascia e ainda levava umas camisas das patroas para coser sentada ao pé do lume depois de jantar. Um ano depois, rumou para a França como tantos outros portugueses e eu fiquei na pequena vila, à guarda da minha avó.
Tenho boas recordações deste tempo, costumo lembra-lo como a era dourada da minha vida. A casa estava sempre animada, os jantares eram em família, aos fins-de-semana e quando não tínhamos aulas de tarde íamos todos juntos para a vinha ou para a horta. A minha avó era rígida, educação à moda antiga, devota a São Francisco já o meu avô era mais liberal. Contava-me histórias da sua juventude, das tropelias que fazia e das dificuldades que passou em criança. Era um homem do mundo. Já o meu pai, via-o no café da esquina sempre sem sede e de copo vazio, durante muito tempo não ouvi a voz nem senti o olhar dele.
No verão em que fiz doze anos a minha mãe divorciou-se do meu pai e encontrou a paz ao lado de um homem que a estima, aos catorze o meu irmão nasceu.
A vida corria normalmente, como seria de esperar num meio pequeno até que ao entrar na adolescência comecei a sentir asfixia. As constantes viagens nas férias para o estrangeiro e os impulsos de rebeldia que emanavam das grandes cidades como Paris começavam a despertar em mim a necessidade de descobrir. Quando regressava à pequena vila sentia-me oprimida pelas pessoas que me rodeavam. O espaço parecia-me pequeno, não tinha alternativas ociosas ou culturais que me cativassem. Eu não compreendia a diferença de mentalidades e as pessoas não entendiam as minhas escolhas, o que contribuía para o meu mal-estar. Sentia-me atacada por tudo e por todos, a minha revolta e necessidade de aceitação transformaram-me num ser rebelde. Sempre fui teimosa, bastante, sempre que me diziam: não vás por aí, eu ia… O meu grupo de amigos era mais velho, os maus rapazes e más raparigas reuniam-se aos fins de tarde numa casa abandonada. Tinham feito um “gato” no poste público que ficava coladinho à janela do quarto do andar de cima. Ouvia-se rock, música electrónica, fumavam-se uns charros e bebiam-se umas cervejas. De vez em quando alguém levava os restos do jantar ou íamos à padaria que ficava na saída da vila comprar um pão acabadinho de sair do forno que devorávamos a ver o nascer do sol.
Experimentei ganza pela primeira vez aos quinze anos. Não sei se por curiosidade ou para me afirmar. Lembro-me que estávamos sentados num dos miradouros da vila, era início de primavera. A vila nesta altura cheira a flores de tília, o céu nocturno repleto de estrelas cobre as casas e mergulha nos montes. Já não me recordo a quem pertencia o rosto cujas mãos me rodou o charro, peguei nele e hesitei, eles estavam todos eufóricos a tentar queimar as asas a uma formiga, completamente sorridentes. Eu queria um sorriso, bem, não era o sorriso, mas sim a felicidade que lhe associamos. Levei o charro aos lábios e puxei o fumo. Não estava a contar com aquele sabor forte a picar-me na garganta e explodi num ataque de tosse desenfreado. Após o gozo da praxe, por não saber fumar e duns quantos ensinamentos dos peritos lá consegui fumar correctamente. As primeiras passas entraram-me directamente para o cérebro num formigueiro que partiu dos pulmões em velocidade de cruzeiro. O ritmo cardíaco disparou, os suores frios começaram a percorrer-me o corpo. Uma sensação de paz e bem-estar inundou-me. Tinha encontrado um escape.
Nessa altura, completamente farta e na revolta inconsciente de ser adolescente optei por deixar de estudar. Estava na hora de ir de encontro ao mundo. Mudei-me para França, fui morar com a minha mãe deixando no ar a promessa de não regressar.
Por muito que na minha mente eu tivesse tudo controlado, as coisas não iriam acontecer como eu tinha planeado. Na minha inexperiência de vida, tudo seria um mar de rosas. Neste ponto estava a confundir rebeldia com razão, agia consoante o pulsar do coração e não queria ouvir as vozes que gritavam para não ir por ali, mas eu fui…
Sempre fui teimosa, bastante, sempre que me diziam: não vás por aí, eu ia…
Durante os primeiros meses, o convívio com a minha mãe foi pacífico, estávamos a procurar trabalho para mim numa das "madames" dela, o meu irmão deliciava-me e o meu padrasto respeitava-me e acima de tudo, não bebia.
A imagem que a minha mãe tinha da filha não correspondia à rapariga que vivia debaixo do seu tecto nem a dela, que era a sombra da mulher silenciosa e sofredora que eu me lembrava e eu na sua memória era a menina que corria descalça nas ruas.
Apaixonei-me perdidamente aos 16, encontrava-me a trabalhar numa padaria dum amigo da minha mãe. Já saía à noite e estava a pensar em ter o meu espaço, pois as discussões com a minha mãe começavam a ser frequentes.
A perda da virgindade, não me tocou como seria suposto. Toda a ideia de romance, borboletas e fadinhas não aconteceu. Foi algo que naturalmente iria acontecer naquele contexto. Ele era mais velho, tinha experiência de vida e isso atraiu-me. Não senti prazer, desconhecia a palavra orgasmo. Durante o tempo da relação e mesmo depois disso estive conformada que o sexo era assim. Sem prazer. Quatro anos depois e de muitas historias pelo meio é que soube o que era . Pensamentos da treta já são horas de levantar…para mais um dia na prisão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Histórias de amor..


“As notas da guitarra portuguesa enchiam a sala, nunca se apercebera do poder hipnótico que o musico detem nas suas mãos dedilhando as cordas com uma entrega que a ultrapassa. Nunca se conseguiu entregar totalmente em nenhuma das esferas da sua vida. Cambaleia relutantemente para o caminho que lhe parece o mais favorável vivendo sempre agarrada ao sentimento de medo…”

Mas que porra…não consigo mais ler isto, discursos de auto comiseração de menina mimada. Bla bla bla e bla bla bla mais umas lagrimazitas e uns soluços e coitadinha da menina que tem medo. Haja paciência… o meu medo é não saber como vou pagar a conta do gás amanha, ou se o empréstimo vai entrar a dia 1 ou dia 2. Já nem penso muito nestas coisas dos poetas que sofrem e sofrem e voltam a sofrer e dramatizam esta porra. Dizem que estamos em crise, ora pois bem, a minha crise é a mesma desde que nasci. Educada pela televisão e pelas velhotas lá do prédio que me enchiam os bolsos de chocolates quando o meu pai aparecia tarde e más horas depois da jogatina ter corrido mal e dançava um corridinho de porrada na minha mãe. As coisas acabaram por mudar, ela matou-o… nada que não fosse previsível,  23 anos a levar porrada de meia noite mal seria que continuasse naquilo. Ainda me lembro do sorriso de satisfação dela quando a vieram buscar, parecia que ia em paz… e vêm estes líricos dizer-me que as guitarras são lindas e que cambaleia no caminho. Que não vá de saltos a gaja que assim já não cambaleia.  

“De repente ele entrou e  ela sentiu um tremor a percorrer-lhe todo o corpo e o seu ritmo cardíaco disparou, um leve rubor cobriu-lhe a face dando-lhe um ar virginal…”

Acho que vou ler mais um bocadinho, histórias de amor sempre me caíram bem……. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Noite de mim, noite sem mim...

a noite nos seus traços libidinosos compactua com a inconstância do pulsar dos meus pensamentos. as horas correm num ritmo lento e compassado pelo bater do meu coração. não quero sentir a imensidão do barulho que borbulha nas ruas onde corpos sedentos de companhia invadem o meu espaço com o seu riso. a sua sede representa a minha que prefiro esconder na penumbra do meu quarto. quero imagina-los assim. hoje apetece-me ter-te aqui, só para reter o teu cheiro que é só teu...reconheço-o no meu corpo nos dias em que te sinto perto de mim. queria que a noite entendesse os meus desejos, os meus sentidos, a minha inconstância e me indicasse o rumo que os meus passos devem tomar. costumo perder-me em sonhos e utopias que me invadem de forma abrupta, perdendo mais tempo a sonhar que a construir a realidade que procuro mas não consigo começar a criar... queria que te transformasses em noite, mas não queria deixar de ser o dia...

sábado, 2 de abril de 2011

Metamorfose

Os dias passam e as mudanças ocorrem sem que consiga absorver a magnitude das transformações que germinam em mim e nos outros. Nos últimos meses senti o tempo duma forma que ainda não tive hipótese de analisar sem ser pelos sentidos. O tempo continua com o seu tempo, mas a minha percepção dele alterou-se. O mundo gira no seu eixo, a sociedade transmuta-se e eu parei; para tentar descodificar a metamorfose que sofro e o mundo sofre. Sem no entanto entender e qualificar o ser em que me estou a tornar, o mundo que está a eclodir.. Tento não culpar o tempo e as alterações que ele traz consigo... Não é ele que tem a culpa, somos nós com as consequências das nossas acções que mudamos os caminhos e os significados da nossa existência consoante a maré das necessidades e dos sonhos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Trigueira e moça...

o rosto trigueiro dourado pelo sol ardente dos campos transparece um cansaço que a consome internamente. mãe de três filhas cada uma mais perdida que a outra nascidas no meio das trevas da fome e da violência. não sabe das suas filhas...mas também não quer pensar nelas. estão melhor sem ela..pensa numa tentativa vã de apaziguar a sua dor.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

queria...

queria conseguir ver o mundo pelos teus olhos..
encontrar em pequenas coisas a razão de um sorriso. descobrir na brisa a essência do respirar.. queria ser as letras que voam nas mentes dos sonhadores que as enlaçam em palavras que nao sei escrever..
queria ser a chuva que rejuvenesce o mundo matando a sede faminta da caricia..
 anseio a forma daquilo que não se vê, não se toca nem cheira, só se sente.. queria ser o descobrir dum novo elenco pronto para encenar uma realidade perfeita com sabor a liberdade..
queria ser o poema onde sentes as palavras caminhando pelo teu peito abraçando esse coração..porque esse e não outro?
não sei...


(ao som de the tiny )

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

coincidencias?

a chuva de folhas douradas das árvores ondulavam ao sabor do vento. aquela árvore isolada no meio dos muros de pedra fazia-me sentir compreendida. o vapor da minha respiração formava pequenas nuvens que se dissipavam no ar. o vento gélido entranhava-se na minha pele chocando com o calor que ardia na minha alma. o céu escuro como o breu dava ainda mais encanto ao circulo lunar que iluminava  noite... de repente..ele chegou...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

era uma vez....

ele olhou para ela e sorriu... não entendia como aquela doce criatura podia estar ali, dormindo nos seus braços agarrando-se a ao seu corpo como se de uma bóia se tratasse. o rubor das faces dela ainda se mantinha ao de leve contrastando com a sua pele alva.. momento de união é como conseguia descrever todos os toques, os beijos tímidos no inicio que depois se revelaram ardentes, o calor daquele corpo que teimava em não descolar do seu. a sua menina mulher... com um pequeno gesto gostaria de lhe apagar as feridas que ainda brotam do seu coração. expira o aroma que impregnou as paredes amarelas do seu quarto. cheiro de união completa para si. não consegue encontrar outra definição que não essa. ternamente murmura o seu nome no meio da escuridão e abraça-a. inconscientemente ela no meio do seu sonho deposita suavemente um beijo delicado no peito dele continuando a sua viagem pela terra encantada. mais uma vez união pensa ele...e adormece..

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Decisões...?

todos temos os nossos diálogos interiores. muitas vezes com Deus, com nós mesmos, com alguém que está longe, com alguém que já amámos, com quem já vivemos, com aqueles que partiram. em todos os locais a nossa mente viaja em mil um pensamentos muitos dos quais nem nos lembramos do seu conteudo. conversas estas que não é mais que o nosso EU em busca de respostas e orientações para seguir os caminhos que achamos mais acertados. 
estas escolhas ditam aquilo que somos perante os outros pelas atitudes que exteriorizamos que escondem aquilo que somos realmente e que nunca é receptado com o mesmo código com que enviamos a mensagem. ninguém é aquilo que mostra ser, existe sempre uma pessoa diferente por baixo da capa. pessoas essas que se revelam em privado só a um certo e determinado numero de indivíduos com os quais se sentem realmente seguros. 
hoje ando a vaguear nestes terrenos, tentando encontrar um rumo para construir, evoluir ainda mais o meu EU.. sinto a necessidade de crescer, sentir, amar... VIVER...ser o que nunca fui, experimentar o que nunca me foi mencionado, provar delicadamente cada emoção nova que a vida me pode oferecer..hoje.. apetece-me baixar o pano que cobre o meu rosto, erguer os olhos para as nuvens que acompanham este comboio.. hoje.. não me apetece resguardar de ninguém, não me apetece conter e inibir o que sou...hoje... um novo inicio aguarda-me...

(continuação da viagem de Ana Felix)

ao som de : humanos- já nao sou quem era

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Paz..

mais uma vez os pensamentos perdem-se na bruma de fumo que instalei no meu quarto a fumar cigarro atrás de cigarro. ir a casa de Eva fez-me bem. senti-la perto mesmo estando a uma eternidade finita de distancia. trouxe um relógio que muitas vezes tentei furtar-lhe sendo sempre apanhada em pleno delito..  a pele da pulseira ainda tem o seu cheiro. trouxe um pedacinho dela... descansa em paz.

ao som de: A chaga - Ornatos violeta

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Não tenho melhor titulo que este para titular isto...

noite escura só se ouvem os passos descompassados do vizinho gordo, banhado em perfume de uva fermentada do andar de cima.
o vento ecoa pela janela assobiando uma estranha melodia que se entranha nos ossos espicaçando-os..
arrepios navalhados percorrem a minha coluna vertebral quase desfazendo em pó a minha medula.
                                      não consigo dormir...
o silencio entre-cortado pelos sons nocturnos tardiamente enaltecidos pelo meu espírito corroem-me as veias gelando o percurso do sangue.
gostava de fechar os olhos e conseguir conter a respiração até as veias me saltarem bruscamente no pescoço e ver o branco.. soltar o ar quente consoante o compasso do descompasso dos passos do vizinho e perder-me na nuvem do adormecer... 
mas não adianta.. já o fiz..

(personagem de ninguém: Madalena)                   

aquele abraço "gIgAnTe"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Funeral de Eva

(seguimento da série de contos das personagens de ninguém)

A sala esta abafada, cheia de caras repletas das mais variadas emoções, trajadas de negro luto enaltecem a urna ornamentada por belas flores com cartões que nem me dou ao trabalho de ler, está a asfixiar-me este ar nauseabundo...


o meu olhar divaga entre os rostos sem nome cavaleiros em vultos esbatidos que insistem em abraçar-me inundando o meu ser com odores que não quero sentir, beijos secos que não quero receber, abraços dos quais quero fugir, palavras de consolação que não quero ouvir, conselhos repetidos que não me interessam para... NADA!
-oh Maria tu ve-la! agora estas sozinha, olha que eu estou aqui..
- Mariazinha esta tão grande querida.. olhe a sua imã deixou testamento?
e esta porcaria continua... bla...bla...bla...bla...bla..blA..blA..bLA..bLA..BLA...BLA!
 -CALEM-SE, CALEM-SE! VÃO EMBORA! grito para mim mesma num grito mudo que só eu consigo ouvir..
O lençol rendado que cobre o rosto de minha irmã parece mover-se como se ela respirasse. Liberto-me das mãos que me prendem e aproximo-me lentamente da urna simples mas imponente que ocupa metade da divisão. pura alucinação da minha esperança.. não aguento estar aqui.
Na rua, as nuvens cinzentas não assustam uma onda de gente que pretende adorar o cadáver, continua a oferta indesejada de sentimentos aos pacotes, beijinhos a torto e a direito e tentativas de abraços que ando a tentar evitar. vou cruzar os braços pode ser que assim não me chateiam muito.. merda lá para os beijinhos, já tenho a cara toda babada!
 não me vão tirar a minha dor, nem tão pouco devolver-me o que já me foi tirado, com a merda dos beijinhos! Estou cansada deste teatro de faz de conta onde cada um desempenha o seu papel como formiguinhas treinadas e quem escapa à linha é para abater. Entre duas passas dum silencioso cigarro observo as pessoas que ali estão. não conheço nem metade. algumas nem me conhecem a mim mas fazem de conta que sim e elaboram mil e uma perguntas sobre os pormenores da morte. AIIIIII MAS A VOCES QUE VOS INTERESSA???! volto a gritar de mim para mim em voz roucamente silenciosa...
-porque  isto tudo?
porque tão cedo?
 RESPONDE-ME CABRA!!!
podia ter passado mais tempo contigo, dar-te mais atenção, conhecer-te mais e  melhor...  AMAR-TE MAIS!!!... FODA-SE! ando em diálogos internos com as minhas vozes invisíveis que me tentam controlar e mandar nos meus actos. não consigo expressar o pesar que a tua partida me provocou e provoca!!!
  vou para tua casa sentir o teu cheiro e vestir o teu roupão só para fazer de conta que estas a trabalhar e voltas para jantar...
se ao menos conseguisse apagar esta dor...tudo era mais fácil...vá lá começou a chover...cheira a ti Eva...


texto participante no desafio com o tema "O cheiro da Chuva" proposto pela Fabrica das Letras

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A forca...

as cordas invisiveis apertam a minha garganta impedindo-me de respirar! revejo a minnha vida num relampago fugaz.. nao me apetece libertar destas cordas invisiveis que me sufocam.. mas também nao quero ficar presa nesta indecisão de estar bem ou não estar.. deixo-as apertarem mais e mais nao mexendo qualquer musculo nem sentimento com o intuito de me decidir.. vou deixar entrar a dor...
a dor de ter de errar, a dor de ter de sentir, a dor da frieza desmedida.. quem seria eu sem a dor?
mais um ser esbarrado na monotonia de sentir por sentir, de respirar por respirar...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

:S

aiiiiii maldita alucinação de sentidos
mergulhados na tinta negra
que jorra do meu coração..
pinceladas bruscas envolvem a cor
e a negritude num bailado sinuoso
onde com pés descalços caminho
pontapeando pedras bicudas
que por momentos iluminam a realidade
e me mostram que as rosas são efémeras...

terça-feira, 18 de maio de 2010

:)

 sonhos incontidos corroem as minhas veias
inertes que se limitam a ver a magia acontecer 
os sentidos absorvem as sensações 
que a alma anseia gravar no seu centro 
emoldurando-as de sentimentos 
que começam a surgir vitimas do segredo da noite 
teimosamente adocicam o olhar 
fazendo ver o que se tem 
saboreando em pequenos tragos esta nova euforia.
o despertar do que se julgava perdido
faz renascer a pessoa de outrora banhando-a com uma nova aura repleta de raios lunares entrelaçados com os sorrisos do sol.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Minutos meus..


fecho o caderno das recordações e espero calmamente que se dissipem no ar gélido da noite.. envolvo-me no manto das historias por contar e agarro-me a elas nesta noite vazia de alguém mas cheia de mim..

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Manuel e o voo...

faz uma semana e pouco que Eva morreu.. a sua memoria ficou esquecida naquelas aguas. morava só, estava só. todos seguiram as suas vidas eliminando das conversas o seu nome, apagando os vestigios da sua passagem terrena, para nao a recordar. a imagem de Eva nao é mais que diversos momentos que o tempo rapidamente fez questao de esborratar tornando-os numa pintura abstracta feita pelas maos duma criança. de todos as vidas em que ela entrou tentando encontrar-se a si mesma, mas acabando sempre por destruir o ninho que a acolheu só uma sentiu verdadeiramente a sua falta..o Manuel.. o desgraçado que lhe deu o coração uma e outra vez, recolhendo-o quando ela o rasgava intempestivamente nos seus ataques de impulsividade desmedida, colanda-o com pequenas tiras de fita cola que nunca aguentavam a pressao que o desdém dela lhe retribuía. com a morte de Eva, o nosso martir do amor perdeu-se de novo no meio da escuridão dos seus pensamentos, perdeu-se sem nunca se ter chegado a encontrar.. quando o corpo inerte de Eva foi recolhido dos rochedos para onde o mar o enviou, um outro corpo precipitou-se num voo picado para o fim da dor.. Manuel pilotou a sua vontade para a meta evitada por alguns e ansiada por outros como o remedio para as maleitas do espirito..